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Cidade Fantasma

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Ciao a tutti! Era madrugada, casa de uns amigos milaneses e o tema da conversa: coisas macabras ou de gosto particular. Assim como nós, eles adoram essas coisas, contamos de nossa visita ao Castelo do Drácula na Romênia (leia aqui a matéria sobre ele), sobre as Catacumbas de Viena (matéria aqui). Eles nos contam outras e nos perguntam se já fomos a cidade fantasma de Consonno. Pausa. Cidade fantasma? Nunca fomos a nenhuma e era isso que faltava! E o melhor, fica a 1 hora de Milão, pertinho!

Essa conversa foi no meio da semana e no sábado já estávamos nós lá, na estrada a caminho da cidade fantasma, que fica na província de Lecco, pouco antes dos Pré-Alpes Lombardos, em uma aldeia do município de Olginate. Esta cidade nem sempre foi abandonada, primeiro foi um borgo medieval e depois uma cidade de brinquedos iluminada inclusive de dia, como uma Las Vegas italiana, criada por um milanês amante do luxo (ou do brega, depende do ponto de vista), Mario Bagno, e que foi palco de sua megalomania.

Pesquisando mais a fundo, descobrimos que tudo começou no final dos anos 50, quando o boom econômico fez com que até as ideias mais imprudentes parecessem possíveis. Porque esse era o projeto do Conde Bagno: um empreendimento imprudente, fora de qualquer esquema, que atraía a atenção de toda mídia nacional e internacional. Resumindo, seu projeto foi dividido em duas fases.

O primeiro: requisição e demolição de casas e estábulos camponeses. A segunda: a construção de uma cidade suntuosa. Para melhorar o panorama da área, o conde não hesitou nem mesmo em dar uma ordem para “diminuir” com dinamite um morro vizinho segundo ele, alto demais.

Em 1961 começa a construção da cidade dos brinquedos. O lugar para ele era ideal, próximo a Milão. E em poucos anos já existiam hotéis e restaurantes, com o aspecto de várias culturas: um templo chinês, um castelo medieval, um hotel de luxo com uma torre de mesquita, o qual hospedava visitantes e lojas. Sua intenção era ainda construir um campo de futebol, um de golfe, um de basquete, uma pista de patinação, uma Luna Park e um zoológico. 

“Em Consonno o céu é mais azul”, eram os cartazes de boas-vindas daqueles que cruzaram a porta da frente, com dois guerreiros de marionetes medievais em posição de guarda.

Logo o lugar se tornou o refúgio predileto da burguesia milanesa, a Disneylândia lombarda. Nossos amigos milaneses dizem que seus pais já haviam comentado que lembravam das propagandas, e contaram também que com o passar dos anos, o interesse no lugar que era novidade, diminui. Um desmoronamento na única estrada de acesso a Consonno em 1976 termina de vez com o sonho de Mario, que tenta arrumar a estrada, mas uma briga sua com a prefeitura faz a estrada ser reconstruída integralmente somente em 2007.

Com o ocorrido, a cidade entra em seu declínio e abandono, lentamente se tornando uma verdadeira cidade fantasma, desabitada e também um destino para festas raves ferozes (a última em 2003 praticamente destruiu tudo o que restava da cidade). Já que Mario Bagno, seu criador morre em 1995 aos 94 anos. 

“Em Consonno é sempre festa” diziam as propagandas em toda parte.

A subida até Consonno é uma estrada íngreme e curta, cheia de curvas, porém, sua vista é de tirar o fôlego com casinhas que parecem feitas de biscoito. Em uma das curvas tinha um pastor e suas ovelhas, que coisa linda! Paramos o carro e junto com um outro grupo tentamos (sem nenhum êxito) alimentar as ovelhinhas com grama (a vontade real era sair rolando com as ovelhas no chão, abraçando todas elas, mas…). Todo mundo ali é extremamente educado e gentil, com suas vendinhas de produtos frescos produzidos no local (como a Azienda Agricola Biffi Francesca). E todos nós com aquela cara de gente da cidade que nunca viu uma vaca pessoalmente. Enfim, além de visitar a cidade fantasma, tem toda essa parte de agroturismo, que é sempre legal.

E chegamos na cidade fantasma. Um lugar surreal que do borgo original restou apenas a igreja, a casa paroquial e um pequeno cemitério. Todo o resto foi demolido, e dos 281 habitantes da antiga cidade hoje restam apenas 4. Uma associação de antigos moradores e seus filhos tenta manter a identidade do antigo borgo e não são permitidas festas no lugar. Consonno não é mais sempre festa…

Nós chegamos cedo e fomos os únicos visitantes por pelo menos meia hora e cada passo nosso era o único som em meio aquela linda paisagem natural das montanhas em contrate com paredes descascadas, infiltrações, banheiras novas abandonadas, janelas quebradas, pó, mato invadindo a construção, persianas caídas e muito silêncio. A sensação que se tem andando pelos apartamentos do antigo hotel, pelo restaurante ou mesmo pela praça é de muita estranheza. Certamente todos os grafites que estão lá nas paredes contribuem para este sentimento.

Cada detalhe conta uma história, e cada visitante anda lentamente, admirado. E mesmo que fossemos os únicos visitantes inicialmente, depois chegou bastante gente, crianças, adultos, casais, o lugar é bem visitado sim. Um bar funciona algumas horas nos finais de semana, como uma forma de vigiar o local que hoje tem muitos curiosos, fotógrafos com suas câmeras e drones. A entrada a cidade fantasma é permitida apenas nos finais de semana durante o dia.

Mesmo com toda a estranheza, adoramos conhecer Consonno e se tiver oportunidade, conheça também. Até a próxima! Bacio.