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Moro em Milão e isso você já deve saber, mas uma coisa que talvez você não saiba é o fácil acesso que morando aqui tenho aos outros países europeus. No Brasil falar que conhece três países é automaticamente virar o “viajante” da turma. Aqui a excursão do colégio é ir até Paris conhecer o Louvre, e não estou falando de excursão de escola francesa. Claro que a Europa sendo pequena é mais fácil essa troca. Em São Paulo com a distância que chego de Milão em Lugano na Suíça, não chego em Santos (que saco ter nascido em um país tão grande). 

E falando em facilidades, não só territoriais, um dia olhando as promoções do Black Friday, encontro passagens da Ryanair de 5 euros para Berlim. Poxa, compro uma pizza com 5 euros! E quando aparece esse tipo de preço não é uma questão de escolha ir, é uma obrigação, é o destino te dizendo que você vai conhecer outro país e não comer outra pizza. Poucos meses depois pego minha mochila (sim, vou só com uma mochila), a Ryanair tem passagens muito baratas mas até o ar que você respira é cobrado por fora (menos uma mochila de bagagem de mão). Sendo assim, me recuso a pagar o valor de outra pizza em uma mala extra (usar uma calça jeans por 3 dias não é pecado) e vou com o maridão passar um fim de semana na cidade que se tornaria a minha predileta depois de Milão.

Quando o avião aterriza e os italianos batem palmas para o piloto que conseguiu essa incrível proeza de pousar (eles fazem isso, me divirto), chego e minha primeira impressão de Berlim foi: que cidade esquisita! O hotel que fiquei está localizado na parte soviética da antiga divisão do muro, e a primeira rua que andei foi a Karl Marx, olhando as lojas logo me veio a lembrança do Mappin, com aquelas propagandas dos anos 80, me senti novamente criança, estacionada no tempo, e logo já pensei, gastei errado aqueles 5 euros, podia ter pego a pizza. Meio decepcionada com a cidade vou até a East Side Gallery, que é o lado leste do antigo muro de Berlim, e foi preservado da demolição virando uma galeria de arte a céu aberto. Eu queria ver isso de perto, e realmente é muito interessante e te faz refletir sobre o quão aquela cidade foi impactada, triste de ver que em uma madrugada tudo mudou para eles. Os muros, porque são dois, com uns metros de distância e um vão livre no meio deles, são realmente impossíveis de escapar. Hoje o que sobrou, virou uma obra de arte, com grafites de diversos artistas, lindo mesmo. 

East Side Gallery, quando voltei a Berlim no inverno. Repare nos dois muros.

E no meio de todos os turistas, inclusive eu, tirando todas as fotos possíveis, um carro vermelho pára com tudo numa vaga em frente ao muro e todo mundo olha assustado. Não era nada, ele estava só estacionando, mas uma coisa me chama atenção: Ramones Museum escrito em um poste. Naquele momento a East Side Gallery não é mais tão importante, não me entenda mal, ela sempre vai ser importante, mas um museu dos Ramones?! Nunca ouvi falar disso, preciso ver. Jogo no GPS e era só atravessar o rio Spree (eu já estava em uma das margens).

Poste com a propaganda do RAMONES MUSEUM e o carro vermelho.

Saio correndo como se tivesse descoberto o fim do arco íris e um potão de ouro só pra mim. Atravessar o rio pareceu uma eternidade. Entro no lugar e uma surpresa, não era todo mundo de cabelinho preto comprido, all star e franja? Bom, o rapaz super simpático que fica no balcão era, mas e a decoração? Parece a casa de uma avó que deixa seus netos que ouvem punk escreverem na parede. Mesmo com calor de 30 graus, o ambiente familiar me faz pedir um café, não uma cerveja. Poxa! eu ainda estava confusa. E uma mini xícara florida de porcelana, um café delicioso terminam de me conquistar. Gostei desse lugar.

Olha a xícara florida! Own…

Um bar-café-museu-lojinha com todo o seu contraste entre as paredes rabiscadas com os nomes das bandas que tocam no local, flyers dos shows dos Ramones pelo mundo, fotos do Dee Dee, Johnny, Joe, Marky, CJ, cadeiras de madeira, lustres com franjinhas direto dos anos 30 (tudo ali tem que ter franjinha acho), camisetas a venda e uma porta estilo velho-oeste que te faz entrar no museu nos fundos do café fizeram eu me sentir ainda mais em casa. Vi que comprando uma camiseta ou um café o ingresso do museu ficava mais barato. Opa, porque não? Quero tomar o café, visitar o museu e andar pelo mundo todo com essa camiseta e mostrar que esse lugar existe. E o mais legal? Comprando o ingresso, ganhei um PIN e posso entrar eternamente no museu (na hora ele já foi parar na parte mais aparente da minha mochila). Já voltei lá algumas vezes (agora consigo beber cerveja) e esse Pin é realmente um passe eterno para o Museu.

Como tudo ali parece vir direto da casa de alguém, o museu não é diferente, uma coleção de um super fã, mais completa que muito museu de verdade por ai. Corredores estreitos que mantém e preservam o legado da banda em uma ordem cronológica. Que legal ver as letras originais de “Judy is a punk”, “Listen to my Heart” e do grande clássico “Blitzkrieg bop” e foi impossível não ouvir a voz do icônico Joe Ramone cantando junto. E falando nele, seu all star, calça jeans e luvas estão ali. Do Mark encontrei o all star e as baquetas autografadas e reparei que minha insistência em usar all star por toda a vida tem muita referência. Meu Ramone favorito, o Johnny, tem sua camiseta verde água e calça jeans usadas em shows ali e ele tinha quase o meu tamanho! Ele não era muito alto. O ”novo” baixista CJ Ramone não é esquecido, óbvio, com seu baixo também exposto e a máscara do Pinhead completa tudo.

A famosa placa “GABBA GABBA HEY” que era utilizada pela banda nos shows ganha lugar de destaque, perto de fotos de momentos da banda em sua vida privada, como o casamento do Dee Dee e uma foto com a Linda, Joe e Jonnhy na mesma sala. Todo tipo de merchandising que a banda vendia em seus shows, como palhetas vendidas por apenas 1 dólar e também recortes de jornais que mostram sua trajetória, inclusive como foram notificadas as mortes de alguns de seus integrantes. Uma sala especial dedicada ao filme Rock ‘n’ Roll High School e ingressos de todas as fases dos Ramones, inclusive os legendários shows que fizeram no Brasil, com abertura do Sepultura ou o set list do último show em Los Angeles, que teve participações especiais como Eddie Vedder, Sound Garden e Lemmy Kilmister, mantém viva a memória de uma das maiores bandas de punk de todos os tempos e uma das minhas preferidas.

Exibindo com orgulho a camiseta do Museu no Estádio Olímpico de Berlim.

Sério, tem absolutamente tudo! E se estiver em Berlim se perca no pequeno e aconchegante museu, gaste horas vendo cada detalhe, cada letra, cada show, relembre a banda, cada um de seus integrantes e saia de lá ainda mais fã, como eu com certeza sai. É um verdadeiro túnel do tempo. Feliz com o que vi, saí dali vestindo minha camiseta nova e a certeza que meus 5 euros foram muito bem gastos. Hey Ho! Let’s Go!

www.ramonesmuseum.com
Oberbaumstraße 5, 10997 Berlim – Alemanha